textos de Afonso Miranda


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ROCK - HOMENAGEM A LIGETI

A segunda metade do século XX foi, para a música, meio século que tardou em acabar. Não, certamente, meio século para nada, mas, como escrevia o filósofo francês Comte-sponville, “um meio século a mais, como uma gaguez da história, como uma farsa fatigante”. Foram cinquenta anos subsidiados para a extinção da emoção estética, para a erradicação do prazer. Reduzida a obra à ideia, a beleza tornou-se marginal. Mas, com cinquenta anos de repetição, o gesto de subversão e a busca do novo banalizaram-se. Esgotadas as vanguardas, o totalitarismo deu, finalmente, lugar à diversidade.

Hoje, em Portugal, a existência dessa diversidade característica do pós-modernismo, deve-se, por um lado, à criação de novas orquestras vocacionadas para a música contemporânea (como a Orquestrutópica ou o Remix ensemble), à existência de novas salas de concerto e festivais com políticas de programação menos conservadoras, mas, sobretudo, graças à coragem e persistência de compositores, como António Pinho Vargas, que lutaram pela liberdade dos processos criativos e abriram um espaço alternativo à margem dessa vanguarda paradoxalmente institucionalizada. Desta nova geração de compositores nascida na viragem do século, Nuno Côrte-Real é um dos mais notáveis e prolíficos exemplos.

Rock – homenagem a Ligeti, estreado em 2004, não é propriamente uma peça no estilo de Ligeti, apesar de conter alguns gestos herdados do compositor. É antes, uma celebração festiva desse compositor que foi na segunda metade do século XX um notável exemplo de independência face ao sistema. Não isento de alguma ironia, o nome da peça contrasta pela ligeireza com o peso e gravidade habitualmente atribuídos à música contemporânea.

Em toda a sua obra, Côrte-Real propõe-se restituir à música a sua natureza sensível: a obra como lugar de comunicação e emoção. Para si, a essência da música, a sua verdade é a poesia, isto é, aquilo que está para lá da técnica e que não se pode aprender; o que se desprende da escrita, sobrevoa a peça, mas não se deixa dizer por palavras. Daqui se compreende a renúncia do compositor em falar da própria obra. Penso que, oferecer a obra em silêncio é reconhecer que a força do acto criador não pode ser nomeada, e que permanecerá sempre um mistério. A obra diz-se a si própria, e o que ela diz está radicalmente entretecido no seu apresentar-se, no seu manifestar-se, no seu revelar-se. Como tal não pode compreender-se de outro modo. Sendo essencialmente de natureza expressiva, o sentido da obra não é susceptível de ser transmitido verbalmente. Reclama sim, ser vivida. Heidegger falou de epifania, “fazer ver a partir de si mesmo”, desvelamento – “a obra de arte é uma dádiva de lugares nos quais Deus aparece”. O discurso sobra a obra nunca a torna presente. Quando pediram a Schumann que explicasse uma peça, ele sentou-se e tocou-a pela segunda vez. A linguagem tropeça quando fala de música. Habitualmente refugia-se no pathos da imagem, ou então, esgota-se em explicações técnicas ou interessantes análises, mas que em nada contribuem para tornar presente a “coisa mesma”. A música é inefável. Termino parafraseando T. de Pascoaes: “Quando tudo é música, o que somos nós senão ouvidos?”

Afonso Miranda

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