textos de Afonso Miranda


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A HERANÇA AMERICANA

(sobre Copland, Barber e Porter, e passando por Carrapatoso)

Dum ponto de vista musical, o século XX norte-americano é, em geral, marcado pela busca e afirmação de uma linguagem musical genuinamente americana. Até aqui os EUA não tinham uma tradição musical própria. Por um lado, as suas músicas populares não tinham um âmbito verdadeiramente nacional, sendo antes o reflexo da diversidade étnica, racial e cultural duma população constituída maioritariamente por imigrantes. Por outro lado, a atividade criativa e concertística era largamente determinada pela veneração do sinfonismo europeu e pela importação desses reportórios.

A explosão do jazz ocorrida nos anos vinte, com a sua ampla difusão e impacto por todo o território americano, constituiu um acontecimento decisivo para a transformação da realidade musical americana. O jazz assumiu espontaneamente uma dimensão nacional e tornou-se rapidamente num importante traço identitário da cultura musical norte-americana, conquistando o estatuto de música popular genuinamente americana. A existência desta identidade, encarnada pelo jazz, viria despertar a consciência nacionalista dos compositores eruditos, que procuraram nele inspiração para a formação uma tradição musical americana, uma tradição que assentasse num modo de expressão próprio, tipicamente americano, mas que, simultaneamente, tivesse um impacto e um reconhecimento internacionais.

Aaron Copland (1900-1990) foi o compositor mais influente da sua geração e um representante maior desse movimento de afirmação da música americana, procurando fazer uma réplica americana daquilo que Stravinski tinha feito com a música russa. A partir duma sólida formação na tradição europeia, desenvolveu um estilo contaminado de jazz e idiomas populares americanos. O Concerto para clarinete e orquestra, escrito em 1948 para o clarinetista de jazz Benny Goodman, representa um claro exemplo desta tendência. A obra tem uma forma pouco usual, dois andamentos ligados por uma cadência virtuosística. O primeiro andamento, num tempo lento e expressivo, é uma canção de embalar dominada por um lirismo amargo. A cadência dá largas ao virtuosismo e simultaneamente vai introduzindo os temas de jazz latino-americanos que constituem o segundo andamento. Este é constituído por uma série de variações rítmicas, sobre figuras sincopadas tipicamente jazzísticas.

Com uma disseminação espontânea, facilitada pelos novos meios de comunicação como a rádio ou o cinema, o jazz rapidamente de desdobrará numa multiplicidade de formas musicais, que não deixarão de florescer ao longo de todo o século XX. A sua influência será transversal e afetará todos os géneros populares. Também o mundo da canção e do teatro musical da Broadway, do qual Cole Porter (1891-1964) é um dos mais notáveis representantes, se revitaliza a partir dos anos 20 ao apropriar-se dos ritmos sincopados e das fórmulas expressivas típicas do jazz. Porter foi um dos compositores de canções do século XX mais bem formado musicalmente, apesar de ser mais reconhecido enquanto letrista. Os seus textos tornaram-se uma referência, raramente sentimentais, cheios de duplos sentidos e rimas irónicas, direto em relação a temas tabus. As suas primeiras canções eram chocantes para o teatro da época, e daí os seus fracassos iniciais. Após décadas de insucesso Porter continuava a escrever canções, brotavam espontaneamente. Em 1948 produziu a sua obra-prima, Kiss me, Kate, um musical cujas canções alcançariam uma grande popularidade. No contexto da música popular americana, as suas canções são provavelmente as mais refinadas e teatrais, sofisticadas, e musicalmente mais complexas.

Ao contrário da maioria dos seus contemporâneos, Samuel Barber (1910-1981) não se deixou tentar nem pelo jazz, nem pelas tendências modernistas emergentes no primeiro quartel do século XX. Pelo contrário, a sua música inscreve-se numa expressividade e lirismo tipicamente românticos, apoiando-se na linguagem tonal e nos seus modelos formais convencionais. Apesar de partilhar com os compositores americanos da sua geração a preocupação em escrever música acessível a uma vasta audiência, Barber, ao contrário de Copland que perseguia a ideia de uma identidade musical nacional, raramente incorporou materiais populares ou jazz nas suas composições. Todavia, a simplicidade e franqueza da sua música podem ser vistas como qualidades americanas, qualidades que estão bem presentes na música americana da primeira metade do século, independentemente das tendências estilísticas. O Adagio para cordas resulta de um arranjo que Barber fez do segundo andamento do seu Quarteto de cordas n.º1, op.11, composto em 1936. A versão para cordas seria estreada em 1938 numa transmissão radiofónica com Toscanini dirigindo a NBC Symphony Orquestra. Com uma forma de arco a peça é dominada por um lirismo elegíaco. Uma longa melodia flutuante, extática, vai sendo variada numa lenta busca sempre insatisfeita que culmina num clímax fortíssimo, e num súbito silêncio. Com o seu lirismo melancólico a peça ganhou uma imensa popularidade, e nos EUA adquiriu mesmo o estatuto de lamento fúnebre patriótico, tendo sido tocada em cerimónias fúnebres de personalidades como Albert Einstein e John Kennedy, ou em acontecimentos trágicos como o 11 de setembro.

Eurico Carrapatoso (n.1962) representa no universo musical português essa busca pela identidade lusa, levada a cabo através de uma síntese entre as formas eruditas e o recurso ao património musical popular. As suas origens transmontanas constituem um traço marcante na sua identidade pessoal e musical. A música popular frequentemente revisitada pelo compositor funciona como um exercício necessário de purificação da alma, um gesto involuntário de regresso às origens, um grito de nostalgia perante uma identidade em extinção. A sua vasta obra coral, com fortes implicações populares, constitui, neste campo, um património insubstituível para a compreensão da identidade musical portuguesa. Espelho da alma, estreada em 2009 pelo Ensemble Darcos, é uma obra constituída por sete peças baseadas em melodias populares portuguesas, maioritariamente transmontanas e açorianas, às quais o compositor confere uma construção em arco ou em espelho.

Afonso Miranda


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